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terça-feira, 9 de junho de 2015

A propósito do Bicentenário da Missão/Paróquia de Manatuto

Paróquia de MANATUTO – Titular: Santo António de Lisboa

Dom Carlos Filipe Ximenes Belo
Administrador Apostólico emérito de Díli
A Missão/Paróquia de Santo António de Manatuto é uma das mais antigas missões de Timor-Leste.

Os primeiros missionários que evangelizaram aquelas terras foram os padres dominicanos. Em 1670, estiveram dois franciscanos em Manatuto, Padre Frey Agostinho Pascoal e Frei Jão da Câmara.

Em 1669, frei Agostinho de São Pascoal planeava entrar na China para aí pregar a doutrina aos infiéis. Obtida a licença dos seus superiores, embarcou de Manila, na companhia de um outro franciscano, frei Juan de la Camara, no dia 10 de Janeiro de 1670. Dirigiram-se então a Macau, fazendo escala em Java (Jawa).

Uma tempestade mudou o rumo da viagem, levando o barco em que viajavam a aportar em Larantuca. Aí os dois franciscanos foram acolhidos pelos dominicanos; porém, tendo-se levantado animosidade entre eles, decidiram os dois franciscanos sair das Flores. Não foram para Macau, como haviam planeado inicialmente, mas meteram-se em barcos dos mercadores portugueses que se dirigiam então para a ilha de Timor.

Em Abril desse ano, aportaram em Cotubaba, um reino situado na costa norte de Timor, hoje no subdistrito de Atabai. Estiveram nessa povoação cerca de um mês, esperando pelas notícias de Lifau, mas um oficial português pediu-lhes que fossem a Manatuto a fim de confessar os soldados ali estacionados. Viajaram numa cora-cora, levando oito dias até chegarem ao seu destino. Em Manatuto, baptizaram um jovem, de nome António e que estava a morrer. Durante a permanência naquela povoação, e na ausência do padre dominicano, pregavam a doutrina, rezavam a missa e administravam os sacramentos. Entre as várias pessoas que baptizaram, contava-se um sobrinho do régulo de Manatuto. Da sua passagem por Timor, os dois franciscanos deixaram estas impressões:

“A ilha de Timor está situada a oito graus a sul do Equador; é muito abundante em sândalo, cera, ouro e cobre. A ilha divide-se em muitos reis, eles nunca se unem uns com os outros, pois que sempre estão em guerras entre si. E por causa disso, as povoações estão situadas nos sítios mais altos dos montes, a arma é do tipo de parão, azagaia e arco com frechas. O traje dos homens compõe-se de um pano ligado à cintura, com o qual tapam as partes vergonhosas; o braço esquerdo cheio de manilhas, umas de oiro, outras de prata e outras de marfim; muitos colares no pescoço, feitos de grãos coloridos tão duros como uma pedra, que chamam mutissala, (mortem). Os chefes atam ao pescoço uma lâmina de ouro redonda, atam em cima da cabeça umas plumas de galo, e encastelam na testa uma meia lua de ouro, de ponta para cima, trazem nos tornozelos uma manilha, feita de palmeira, e por debaixo dos joelhos umas barbas de bode. O traje das mulheres limita-se a tatuar o corpo desde os tornozelos até às pernas. As principais trazem duas vestiduras, das quais uma de cintura até abaixo, e outra põem-na por cima dos ombros caindo sobre um ou dois braços, de sorte que ficam os peitos honestamente cobertos. A comida, comem um pouco de arroz e carne do búfalo. A bebida ordinaria é um sumo que tiram duma árvore, a que chamam tuaca. O culto consta da cabeça de búfalo espetada num pau com os chifres e miolos, depois de se lhe tirar a carne” .

Depois de passarem três meses em Manatuto, os dois franciscanos iniciaram a viagem de regresso a Batávia, e dali seguiram para Macau, aonde chegaram em Julho de 1671. Nesta localidade, os dois não puderam demorar-se por muito tempo, por causa da oposição dos jesuítas. O padre frei Agostinho seguiu para Cantão e dali prosseguiu a viagem para Fukien, onde fundou uma cristandade. O padre frei Juan de la Camara regressou a Manila, onde exerceu o seu apostolado. Faleceu em Manila em 1682 .

Diz o padre Cristóvão dos Santos de Nazaré que em 1747 funcionou ali um seminário e que havia uma comunidade de frades dominicanos. Em 1750, existia uma igreja dedicada a Nossa Senhora do Rosário .

No ano de 1766, era missionário em Manatuto o padre frei António de São Boaventura, O.P., comissário dos dominicanos em Timor e comissário do Santo Ofício; ele foi governador do bispado em 24 de setembro de 1760. Em 1770, mantinha estes dois cargos (1749-1770) . Nomeado governador interino de Timor em 16 de dezembro de 1765, chegou à praça de Lifau em 4 de abril de 1766. Tomou posse do governo a 16 de abril do mesmo ano, juntamente com o régulo José Pereira.

No ano de 1773, os dominicanos tinham uma comunidade em Manatuto e encontravam-se ali seis padres: frei Francisco da Purificação, frei José do Rosário, frei Tomás da Anunciação, frei Bernardo de São Francisco, frei Manuel de Santa Teresa e frei Francisco Xavier Pereira. No ano de 1829, era vigário da igreja de Díli o padre frei Vicente Ferrer Varela, que era também comissário da Ordem em Timor.

No ano de 1869, era vigário da igreja de Manatuto o padre Simeão Joaquim Piedade Lobo, natural de Goa.

A reabertura da Missão de Manatuto ocorreu em 1877, quando o Bispo de Macau quis restarua as antigas missões de Timor enviando para Timor seis missionários chefiado pelo padre António Joaquim de Medeiros.

De facto, em junho de 1877, foi nomeado missionário residente em Manatuto o padre Manuel Alves da Silva, até 1883. “A princípio construiu uma capella de palapa, rebocada e coberta de gabão, onde exerceu o seu sagrado ministério até 1880, em que começou a igreja que hoje serve de parochial .”
Paroquia de Manatuto
O Padre Manuel Alves foi, porventura, dos mais profícuos escritores entre os sacerdotes. Deixou: Relatório sobre a Missão de Manatuto, 1887, em “Anais das Missões Portuguesas Ultramarinas”, Lisboa, n.º 2, 1889, pp. 114-118; Methodo para ouvir missa, meditando na Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, destinado aos Christãos de Manatuto e Lacló, Macau, 1885; Notícia da Aparição da Virgem Maria Nossa Senhora nas montanhas de La Salette (em galoli), Macau, 1888; Missão de Manatuto, in “Anais das Missões Portuguesas Ultramarinas”, Lisboa, n.º 3, 1891, pp. 132-138; Noções de gramática Galoli, dialecto de Timor, Typographia do Seminário de São José, Macau, 1900; Compêndio em Galoli de orações quotidianas e Comunhão, com uma lição de doutrina em Macaçae e decálogo n’esta língua e em Midic (dialecto de Vinilale e Leclibato), Typographia do Seminário de São José, Macau, 1902; Catecismo da Doutrina Christã em Portuguez e Galoli, com gravuras, Typographia Noronha, Ca., Macau, 1903, 288 pp.; Evangelho dos Domingos e outras festas do ano, em Português e Galoli, Typographia Noronha, Ca., Macau, 1904; Dicionário Português-Galoli, Typographia Mercantil, Macau, 1905, 387 pp. Deixou no Boletim Eclesiástico de Macau uma história do Seminário de São José que não chegou a completar .

Sobre esses trabalhos comentou Dom Paulino de Azevedo e Castro: “Os seus trabalhos linguísticos são fructo d’uma experiência posta ao serviço d’uma vontade inquebrantável em bem servir a religião e a pátria” .

Em 17 de junho de 1897 doi fundado em Manatuto o colégio feminino de Santa isabel e entrgeu às Irmãs Canossianas. A primeira ditectora foi a madre Adelaide Pietra. Nesse ano, as alunas internas eram 15. Em 1903, o colégio tinham 70 alunas internas. Dois anos depois, o numero de alunas era de 170.Em 1910, com a i8mplantação do regime republicano em Portugal, as Canossianass foram expulsas de Timor. Só regressariam em 1923, permanecendo ali até 1942, altura em que se deu a invasão dos japoneses.

Outro sacerdote que foi missionário em Manatuto e que deixou nome foi o padre Anacleto Cotrim da Silva Garcez, natural de Dornes, o qual se dedicou à construção da igreja de Manatuto. Acerca desse missionário, escreveu o autor do livro O Collegio das Missões do Sernache do Bom Jardim: “(…) e Manatuto, onde levantou uma igreja que pelo seu trabalho insano ficou um dos melhores templos da Oceânia. Tanto se esmerou pela solidez e perfeição d’aquellas obras que, muitas vezes, trabalhou de pedreiro e carpinteiro, sendo devido a elle que hoje em Manatuto há bastante gente que sabe d’estes officios .”

No ano de 1885, chegou a Manatuto o padre António Marcelino Moreira, que exerceu o cargo de pároco e de professor. Este missionário “concorreu bastante para o levantamento do nível intelectual e moral dos indígenas ”.

Em 1905, era missionário o padre João Pedro Dias Vale, que dirigia também uma escola com 180 alunos. Neste mesmo ano, faz a visita pastoral a Manatuto o Bispo de Macau, Dom João Paulino de Azevedo e Castro, que administra o sacramento do crisma a 580 pessoas. O missionário da zona, padre João Pedro Dias Vale, missionou em Manatuto até 1910 e deixou inéditos um Catecismo e uma História Sagrada em Galole .

Um dos grandes missionários que trabalharam nesta missão foi o padre Diogo José Ave-Maria de Almeida, que chegara a Manatuto em 1924. O Padre Diogo José Ave-Maria de Almeida nasceu em Velim, Salcete, Goa, Índia Portuguesa, a 4 de Outubro de 1887. Estudou no seminário de Rachol e foi ordenado presbítero aos 28 de Setembro de 1918, sendo nomeado missionário de Timor por provisão de 27 de Fevereiro de 1924. Chegando ali, foi colocado na missão de Manatuto, onde transformou e embelezou a igreja e a capela do Colégio de Santa Isabel. Concluiu as igrejas de Laleia (inaugurada em 1933) e de Vemasse (inaugurada em 1936). Para essas igrejas, o padre Almeida gastou mais de 4.700 patacas, provenientes das suas economias.

Diz um seu admirador: “A Igreja de Manatuto, de velha e deselegante que estava, o Sr. Pe. Ave-Maria de Almeida transformou-a completamente, construindo o altar-mor e os altares laterais, inteiramente novos e os dois nichos mandados vir de Paris à sua custa” .

O padre Almeida trabalhou em Timor desde 1924 até 1952. Regressou a Goa nesse ano. Tempo depois foi eleito “Prelado doméstico de Sua Santidade”, usando o título de monsenhor . Monsenhor Diogo de Almeida faleceu em Goa no dia 13 de Setembro de 1989.

Outro missionário foi o padre Ezequiel Enes Pascoal (1932-1937). Em 6 de setembro de 1932, partiu para Timor, onde foi colocado na missão de Manatuto, como vigário cooperador. Ali dedicou-se ao estudo do galole, que aprendeu e falava fluentemente. A missão ficou encerrada com a invasão das tropas japonesas em 1942. Foi reaberta em 8 de dezembro de 1945.

Em 1950, a missão de Manatuto tinha três estações missionárias, com uma área de 1350 km2 e uma população de 11 292, dos quais 3572 católicos. Missionários: padre Diogo José Caetano Ave-Maria de Almeida, superior da missão; padre António Eduardo Brito, vigário cooperador.

A 31 de dezembro de 1959, a missão de Manatuto tinha cinco estações missionárias e uma população de 21 639 habitantes, dos quais 7411 católicos e 142 catecúmenos; 1030 famílias eram católicas.

Em 1960, a missão sede de Manatuto tinha 3241 católicos e nenhum catecúmeno. A estação missionária de Cairui, 235 católicos e 10 catecúmenos. Cribas, 409 católicos e 7 catecúmenos. Lacló, 1269 católicos e 29 catecúmenos. Laleia, 1329 católicos e 4 catecúmenos. O padre João de Deus Wolfang da Silva era o superior da missão pelo Despacho n.º 11, de 2 de maio de 1960.

Em 1964, as estações missionárias eram as mesmas: Laleia, Cairui, Cribas, Lacló, Laclúbar. O superior da missão era o padre João de Deus Wolfang da Silva, que permaneceu aí até 1975.

A 31 de dezembro de 1973, a missão de Manatuto tinha uma população de 26 919 habitantes, dos quais 10 540 católicos, 15 925 animistas e 1 maometano.

Em 1975, depois da saída do missionário para a Austrália, a missão ficou sem sacerdote. Nos anos de 1976 e 1977, prestou o serviço religioso às populações o padre João de Deus, S.D.B. Em 1979, foi nomeado missionário o padre Mário Belo. Depois dele, trabalharam na missão os padres Agostinho da Costa e Mariano Soares.

Situação da missão de Manatuto em 1997: Sede (Manatuto); estações missionárias: Laleia, Lacló, Cairui. Superfície: 786 km2. Católicos: 17 302. Pároco: padre Domingos da Cunha.

A 31 de dezembro de 2011, a paróquia tinha 17 845 habitantes, com 17 468 católicos e 12 catecúmenos. Pároco: padre Benedictus Randung; vigário paroquial: padre Martinho Gusmão, desde 1 de setembro de 2013.

Missionários que trabalharam em Manatuto: padre Diogo de Almeida, padre Ezequiel Enes Pascoal, padre Norberto Parada, padre Carlos da Rocha Pereira, padre Custódio Santa Vales (exonerado pelo Despacho n.º 10, de 2 de maio de 1960), padre António Eduardo de Brito, padre António Alves, padre Mário Belo, padre Agostinho da Costa, padre Mariano Soares, padre Domingos Cunha, padre Eduardo de Almeida, padre Hermenegildo de Deus, padre Benediktus Randung. Pároco atual: padre Martinho Gusmão.

Aos sacerdotes, às religiosas e aos cristãos de Manatuto, apresento sinceros votos de Parabéns pela celebração dos 200 anos de chegada da imagem de Santo António de Pádua.

Porto, 8 de junho de 2015
Dom Carlos Filipe Ximenes Belo
Administrador Apostólico emérito de Díli.

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