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sábado, 4 de maio de 2013

Nós somos Igreja: “Populi Dei”

Nós somos Igreja: “Populi Dei” 
  • Sempre dispostos a dar a razão da vossa esperança a todo aquele que vo-la peça. (1Ped 3, 15). A religião não é uma das virtudes teologais, cujo objectivo é o fim último: é virtude uma moral, e o seu âmbito específico é o modo de ser daquilo que nela é orientado. (Tomás de Aquino, Sth II-II, 81, 5) 
Depois da passagem da “via dolorosa” do C    alvário e do doloroso silêncio de Sábado Santo, o raio da manhã do Domingo da Ressurreição traz a feliz notícia: “Ele está vivo”. Todos nós somos convidados a percorrer as estradas do mundo para anunciar como Maria Madalena: “Vi o Senhor”. Esta “luz pascal” deve ser anunciada a toda criatura, para quetodos to      todos acreditassem que Ele está vivo no meio de nós. Este é o sentido verdadeiro da Páscoa e a missão que igreja deve assumir na transmissão d d   a fé.

Infelizmente, a igreja diocesana timorense, mormente a Paróquia de Balide, tem criado certo “desentendimento ou falta de diálogo” com a igreja mãe, a Diocese. Não observei esta situação in loco, mas acredito que as informações que correm o mundo são verídicas, apesar de os argumentos utilizados, às vezes, parecem “pseudo enunciados o  o que provoca um certo m mal estar dentro da esfera eclesial timorense.

Como um estudante que está fora de país há alguns anos, tenho uma certa saudade e curiosidade por Timor. Para colmatar esta saudade, no meu tempo livre, leio alguns blogues, como por exemplo: Timor hau nia doben; Timor Lorosae Nação e Forum haksesuk, que actualizam diariamente os breaking news de Timor.

Num périplo recente, deparei-me com uma notícia intitulada: «Sarani Sira Tuda Rahun Vidru Edifisiu UK Sao Paulo II “Pe. Apolinario Husu Sarani Kalma[1]», que fiz questão de partilhar com os meus amigos no meu mural do Facebook através da seguinte mensagem:

«Oinsa atu bele forma padre nebe diak hodi serbi ba igreja no povo, karik baku rahun moru deit, sarani rasik mak tuda rahun vidru universidade católica nebe foin hari? Saida tan moru paroquia nian! Doutrina igreja nian “nunca” hanorin sarani sai ema violencia nain, maibe hanorin ema atu sai dame nain…louvo bispo nain hira tan bele iha coragem atu bele harii Universidade Católica, parabéns!».

Ora, infelizmente face a esta postagem, surgiu uma reacção inesperada e sem fundamento lógico:

            «Hau la temi Igreja, hau prefere liu uja lia fuan Maromak nian ne'ebe hakerek iha livru antigu testamentu tuan no foun nunka hanorin ema atu halo violensia hasoru nia maluk rasik, animal no sasan hotu, maibe hau atu hatete ba ita bo'ot katak, Igreja nia sistema mak eduka ema atu halo violensia. Maromak nia lia fuan nunka hanorin ema atu halo violensia, maibe ida ne'ebe implementa Maromak nia lia fuan liu husi padres-madres iha igreja dalaruma lori sarani sira atu halo violensia. Ba iha kazu ida ne'e, la'os sarani mak halo violensia, maibe Igreja ho diocese mak hadau malu na'an ruin. Ho sira nia hadau malu na'an ruin ne'e mak provoka involve sarani sira[2]».

Assim sendo, partindo deste excerto, procurarei responder directamente às questões colocadas, baseando-me nesta tríplice dimensão:

I.  Igreja nia sistema mak eduka ema halo violência: “o sistema da igreja que educa as pessoas a praticarem a violência”.

Argumentou B. Sesboué que o cristianismo é solidário com a história da humanidade e inscreve o seu anúncio, não num tempo mítico, mas no tempo comum da existência humana. A essência do cristianismo não é a religião do “livro” ou de um “sistema”, mas uma relação pessoal com Cristo: «é a “religião da Palavra de Deus”, não de “uma palavra escrita e muda, mas do Verbo encarnado e vivo”[3]». O Concílio Vaticano II faz o aggiornamento dentro da igreja,ao  ao pôr na ordem do dia uma actualização fundamental em duas vertentes, uma ad intra, a própria realidade e consciência da igreja,  e uma uma ad extra, a sua relação com a sociedade e o mundo. Naturalmente, para além dos valores inestimáveis que a igreja de Cristo ostenta, tornou-se uma praxis concretamente no serviço do Reino de Deus para o bem comum da humanidade. Por isso, é designada como “portadora de esperança” no meio do povo.

Não é difícil de observar, a propósito do sentido a atribuir a esta asserção, que Raimundo Oki não compreende o que é a natureza da igreja, a começar pela linguagem utilizada: «Não menciono a igreja…eu prefiro utilizar as palavras de Deus que estão escritas no Antigo e Novo Testamento que não ensinam as pessoas a praticarem a violência». Contudo, ao formular a frase: «o sistema da igreja que ensina as pessoas a praticarem a violência», não percebe que ela pode inscrever-se nos já referidos “pseudo enunciados”. O que se entende por violência? A palavra violência vem do latim “violentia”, que por sua vez deriva de “vis” que que  quer dizer “força”. Pois, a violência consiste no uso da força, mas apenas da força física que se opõe a algo ou alguém[4]. Existem, assim, vários níveis de violência física: intimidação, ameaça, injúrias, matança, etc. Estes significados não fazem parte do vocábulo da igreja. A consciência da igreja há-de andar unida com uma abertura universal, a fim de que todos possam nela encontrar «as imperscrutáveis riquezas de Cristo[5]». Ora, o cristianismo (i. é,a  a igreja cristã) é uma fé histórica que se refere não apenas a palavras escutadas, mas também a acções, gestos e acontecimentos. A Gaudium et Spes constitui “carta magna” da missão da igreja, salienta a esse respeito que «As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo» (GS 1). A missão da Igreja Católica é   portanto cuidar do homem todo e de todos os homens , como disse Paulo VI. Dada a sua natureza, a Doutrina Social da Igreja ensina que «igreja partícipe das alegrias e esperanças, das angústias e das tristezas dos homens, é solidária com todo homem e a toda a mulher, de todo lugar e de todo tempo…[6]». Por isso, a igreja não só fala, mas testemunha a sua fé. O testemunho fundamental é, não esqueçamos, “para que o mundo creia”, ou seja, é vocacionada para a comunhão eclesial que recebe o nome bíblico de koinonia. O direito e deverpri  primeiro da igreja é porque «com a sua doutrina social a Igreja se propõe assistir o homem no caminho da salvação[7]». Assim, ela conduz o homem a uma vida plena e abundante em Jesus Cristo.

Independentemente dos seus motivos, as duras críticas lançadas contra igreja são sempre bem-vindas, mas há que salientar a sua premência e desempenho na actualidade, em prol da dignidade da vida humana. Os princípios fundamentais da igreja «constituem os verdadeiros e próprios gonzos do ensinamento social católico: trata-se do princípio da dignidade da pessoa humana no qual todos os demais princípios ou conteúdos da doutrina social da Igreja têm fundamento, do bem comum, da subsidiariedade e da solidariedade[8] e marca profundamente o modus vivendi da igreja.

A igreja não pode nunca comparar-se ao partido CNRT ou à  Fretilin, que adoptam um “sistema”, que pode ser democrático ou socialista,por  por exemplo, mas a igreja de Cristo é – segundo a fórmula do Credo – Una, Santa, Católica e Apostólica. Não  tem um “sistema”, mas uma “hierarquia” - Papa, Bispos, Padres e leigos - -que é referida no capítulo terceiro da Constituição Lumen Gentium. Este documento define a igreja como “Povo de Deus”, seguindo a fórmula  presente no Novo Testamento, utilizada 2.000 vezes nos LXX, laos theou, para qualificar o povo de Israel[9]. A igreja constitui o Reino enquanto manifestação terrena do povo peregrinante, ,, homo viator”, que anseia pela salvação da alma depois desta vida.

A história de Timor está marcada pela profunda presença constante da igreja na vida activa, «tal presença é da máxima importância na fase de arranque da vida nacional de Timor Leste, que muito espera na competência de experiência da igreja, nomeadamente através das suas instituições escolares, para uma adequada preparação dos futuros animadores e dirigentes sócio-económicos e políticos do País[10]». No entanto, na génese doutrinal, a igreja com a sua missão evangelizadora é, portanto, educadora. É “Mãe e Mestra” por natureza, por na linguagem de João XXIII. Por conseguinte, nunca ensinou ou ensina, nem ensinará os seus fiéis a praticarem tais violências. A igreja – disse João Paulo II – tem ensinado o dever de agir pelo bem comum; e, procedendo assim, também educou bons cidadãos, para cada um dos Estados. Além disso, ela sempre ensinou que o dever fundamental do poder é a solicitude pelo bem comum da sociedade; daqui dimanam os seus direitos fundamentais[11]. Nesta distinção enriquecedora, compreende-se de  que modo a igreja se torna «coluna e suporte da verdade», capaz, sem desfalecer, de «guardar o depósito das sãs palavras recebidas» dos apóstolos para anunciar e explicar sem erro[12]. Assim, a visibilidade da igreja diocesana timorense tem a ver com qualidades imateriais que exprimem a koinonia eclesial: um só coração e uma só alma, traduzindo assim o sentido profundo do testemunho como “defensora” do povo.

Situemo-nos no âmbito da história do povo de Timor. Aqui a igreja dá um testemunho lucidez e extraordinário ao longo dos tempos, ao lado do povo. A sua   obrigação fundamental baseia-se nesta lógica clássica: «o bem deve fazer-se» e «o mal deve evitar-se». Assim, a tradição cristã sempre ensina as «virtudes teologais» e as «virtudes cardeais», derivadas da experiência humana e da sã tradição ética da humanidade. É um princípio fundamental e abstracto que comanda a vida eclesial. Portanto, se a igreja não tivesse sido a protectora do povo, hoje em dia não teríamos uma pátria livre e independente. Se a igreja não gritasse em defesa do povo[13]: «Vox populi vox Dei», neste momento estaríamos ainda submetidos ao poder dos ditadores. Se a igreja não acolhesse os refugiados em plena crise de 2006, por causa da ganância do poder dos políticos, muita gente já teria morrido. Foi neste contexto constrangedor, instável e propenso à violência, que Deus permitiu o florescimento da Sua igreja. Portanto, a igreja defendeu sempre, nos seus mártires, uma semente de vida: « Sanguis martyrum, semen christianorum». Esta célebre «lei» enunciada por Tertuliano, sujeita à prova da história, sempre se mostrou verdadeira. É o primeiro caminho que a igreja deve percorrer no cumprimento da sua missão; é a primeira e fundamental via da igreja,  traçada pelo próprio Cristo e que imutavelmente conduz através do mistério da Encarnação e da Redenção[14].

Efectivamente, igreja diocesana timorense assume uma grande tarefa, ao serviço e em prol da vida humana. Aliás, a igreja é «perita em humanidade», na linguagem de Paulo VI. A cerca desta atitude, no dia 5 de Setembro de 1999, João Paulo II, depois da oração do Angelus, afirmou: «Notícias preocupantes nestas horas chegam de Timor, onde se realizam os actos de intimidação e de violência. Ao formular os votos que no território se instaure um clima de serenidade e de concórdia, convido-vos a unir-vos a mim na oração por estes nossos irmãos arduamente provocados. A Virgem Maria suscite nos ânimos de todos sentimentos de verdadeira pacificação e de construtivo respeito à vontade expressa nos dias passados pela população timorense[15]». E logo no domingo seguinte, 12 de Setembro, durante o encontro da recitação do Angelus, o Papa voltaria a referir-se à situação em Timor Leste: «o meu pensamento dirige-se de novo a Timor Leste, onde uma violência brutal continua e se enfurece também contra a Igreja Católica, desde há muito tempo artífice de diálogo e reconciliação (…) exprimo mais uma vez a total reprovação pelos graves abusos dos direitos humanos perpetrados naquele território, na vã tentativa de cancelar a vontade expressa pelo população e as suas legítimas aspirações. Renovo o apelo a fim de que os responsáveis políticos e militares, bem como a Comunidade internacional escutem o brado dos débeis e indefesos, e vão logo em seu socorro[16]». Este Pastor universal não se cansou da causa de Timor, retomando na Audiência Geral das quartas-feiras, no dia 29 de Setembro, retomo tragédia timorense: «De Timor Oriental continuam a chegar nestes dias notícias trágicas de massacres perpetrados contra cidadãos indefesos, cristão, sacerdotes, religiosos e religiosas que deram a própria vida ao serviço de todos[17]».

À luz destes factos, o senso comum mais elementar e espontâneo exige que a última meta da igreja seja sempre a busca do bem comum dos seus fiéis. Todos nós estamos de acordo em que praticar a justiça, respeitar a dignidade da pessoa, dizer a verdade e defender a vida humana são tarefas e missões que a igreja desempenha todos os dias, na sua peregrinação ao lado dos fracos e marginalizados, em solo de Timor Lorosae.

II.  «…maibe ida nebe implementa Maromak nia liafuan liu husi Padres-Madres iha Igreja dalaruma lori sarani sira atu halo violência».

Que padres são estes que ensinam os cristãos a praticarem a violência? O termo grego “presbíteros” significa “ancião”, mas o termo utilizado (até em Tetum!) deriva de latim “pater” neste sentido, padre representa todo aquele que é ordenado, num papel de cooperação colegial com o bispo, chefe e responsável da Igreja local. Pedro, depois da Ressurreição, recebe a missão de apascentar toda a igreja (Jo. 21, 16). Os outros “pastores” (Ef 4, 11) são encarregados de velar pelas igrejas. Fiéis ao exemplo do Mestre, eles devem buscar a ovelha tresmalhada (Mt 18, 12) e vigiar contra os lobos ferozes que não pouparão o rebanho, estes falsos doutores que arrastam à «heresia»[18].

            Na verdade, os padres são servidores da palavra e mensageiros de Deus no meio dos homens. Esta é a sua missão: «Pastores populi sui» (LG 23 e 24); «Orando pro populi» (LG 26); «os presbíteros são chamados a servir o povo de Deus» (LG 28); «pastorear o rebanho do Senhor» (LG 45). A ordenação presbiteral configura o presbítero a Cristo e faz dele um colaborador estreito do Bispo, participante do seu tríplice múnus (PO 4-6). Por isso mesmo, o presbítero é um servidor da comunhão e o cumprimento desta tarefa requer a sua constante ligação com Cristo e o seu zelo na caridade e nas obras de misericórdia para com todos. Desta forma também, pode irradiar a santidade a que são chamados todos os baptizados. Há-de ainda educar o povo de Deus para construir a civilização do amor evangélico e da unidade; para tal, renovará e fortificará a vida dos fiéis através duma sábia transmissão da Palavra de Deus, da Tradição e da Doutrina da Igreja e pelos Sacramentos[19]. Por conseguinte, os Padres-Madres não são promotores de violência, mas «portadores da Cruz “staurophóroi”, tendo comprometido a tornar-se portadores do Espírito “pneumatophóroi”, homens e mulheres autenticamente espirituais, capazes de em segredo fecundar a história, com o louvor e a intercessão contínua, com os conselhos ascéticos e as obras de caridade[20]». 

Os padres-madres não são extraterrestres, mas também não são anjos, mas homens de carne e osso. Todos somos pecadores. O que nos distingue deles é que eles estão numa constante busca de Deus “buscadores de Deus”, através da oração e meditação. Trata-se de homens e mulheres que deixam tudo para seguir Cristo e servi-Lo na pessoa dos mais pobres e necessitados. Recordemos que «a luta em prol do desenvolvimento humano começa pelo serviço a favor da própria vida. A vida é o grande dom que Deus nos confiou: Ele confiou-no-la como um projecto e uma responsabilidade. Os religiosos e as religiosas participam plenamente na obra de evangelização da igreja, reservando um lugar de predilecção às pessoas mais pobres e mais frágeis da sociedade. Em nome da igreja, com eloquente testemunho de caridade que dão através da oferta total de si a Deus e aos irmãos. A vida consagrada contribuiu decididamente para a implantação e o desenvolvimento da igreja em Timor»[21].

Se, porventura, alguma vez, os padres e madres (religiosos/as) educassem as pessoas para a violência, seria imperativo encerrar todos os colégios como S. José, Soibada, Fatumaca, Paulo VI, Ainaro, para não os citar a todos. Que ignorância! Especialmente quando o Ministro de Educação veio a público dizer que as escolas católicas produzem bons alunos. Quantos deles são governantes que receberam a formação nos colégios católicos, onde a maioria dos formadores são padres e madres?

            Ao contrário do que pude ler, eles são impulsionadores da “civilização de amor”, numa terra onde a violência não tem fim. São formadores de uma civilização humana, que desde a juventude aprende a encarar a vida com dignidade e respeito mútuo. Recordemos a exortação de João Paulo II sobre a missão dos religiosos e religiosas que deram todo para o bem de Timor: «Para permitir aos fiéis, jovens e adultos, uma descoberta cada vez mais clara da própria vocação e uma disponibilidade de sempre maior para a viver no cumprimento da sua missão, é necessário que eles possam beneficiar de uma catequese completa sobre as verdades da fé e as suas implicações concretas na vida, capaz de os levar a encontrar Jesus Cristo, dialogar com Ele, deixar-se abrasar pelo seu amor e inflamar-se no desejo de O tornar conhecido e amado por todos. Esta formação, dada e recebida na igreja, há-de gerar comunidades cristãs a sólidas e missionárias, porque “um fogo só pode ser acesso por algo que já esteja incendiado[22]».

Esta é a ordem testemunhal da fides eclesiae, que se exprime para o bem de um povo, numa situação de pós-conflito: «Exortando todos os seus filhos e filhas, segundo o nível da responsabilidade próprio de cada um, a empenharem-se decididamente na edificação de uma sociedade cada vez mais fraterna e solidária, cujos membros partilhem equitativamente a honra e o ónus da nova nação. Deus derrame sobre todos o seu Espírito de amor e de paz. Que os discípulos de Cristo se voltem para o Pai de toda a misericórdia, numa atitude de conversão profunda e de oração intensa, para lhe pedirem a força e a coragem de serem, com todos os homens de boa vontade, agente convictos de diálogo e reconciliação[23]».

III. Igreja ho Diocese mak hadau malu na’an ruin.

Talvez a melhor maneira de encontrar uma saída desta situação consista na distinção clara entre os termos Igreja e Diocese.

  1. Igreja
«A igreja não é uma ONG» disse o Papa Francisco, ,na homilia de encerramento do Conclave. A igreja, uma organização? Muitas pessoas têm a noção errada de que a igreja é uma organização ou instituição. Este, porém, não é o conceito bíblico. No mundo grego, o termo Ekklesia, do qual deriva “Igreja”, designa  a assembleia do povo como força política. Mas este é o sentido profano. No sentido religioso, “Ecclesia” é a   realização concreta duma assembleia cristã reunida em igreja (cf. 1Co. 11, 18). Na versão dos LXX, esta palavra designa um acto cultual, próprio da assembleia convocada para um acto religioso, o que corresponde ao termo hebraico qahal (cf. Dt. 23; 1R 8; Sl 22, 26)[24]. Na linguagem do NT, a igreja é o Corpo de Cristo, “sôma Chrystou” (1 Cor 12, 27), ,e corpo em Cristo,, “sôma in Chrystô” (Rom 12, 5). Aliás, a igreja nasce na Páscoa de Cristo, quando Ele passa deste  ao mundo do Pai (Jo. 13, 1). Com Cristo, que venceu a morte e sai vitorioso do Sepulcro, feito “espírito que dá a vida” (1Co 15, 45), surge uma nova humanidade (Ef 2, 15, Gl 6, 15) e uma nova criação[25]. Pela mesma razão, Jesus Cristo é o novo Templo Santo, pedra angular; não é só o novo edifício, mas também o seu construtor. O edifício é a sua obra, a sua igreja que não cessa de ouvir as Suas palavras, continuamente as relendo e reconstruindo assim com a máxima devoção, todos os pormenores da Sua vida. Estas palavras são escutadas também pelos não cristãos, pois a vida de Cristo fala ao mesmo tempo também a muitos homens que ainda não se acham em condições de repetir com Pedro: «Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo[26]». Deste modo a igreja prepara o fim glorioso, a realização escatológica do Reino de Deus.

Jesus Cristo é a via principal da igreja. Por isso, devemos tender constantemente para Aquele «que é a Cabeça», para «Aquele de quem tudo provém e nós somos criados para Ele», para Aquele que é, ao mesmo tempo, «o caminho e a verdade» e «a ressurreição e a vida», para Aquele ao ver o Qual vemos o Pai, para Aquele, enfim, que devia ir, deixando-nos — entenda-se aqui a alusão à Sua morte na Cruz e depois à Sua Ascensão ao Céu — para que o Consolador viesse a nós e continue a vir constantemente como Espírito da verdade. N'Ele estão «todos os tesouros da sabedoria e da ciência» e a igreja é o seu Corpo. A igreja «em Cristo é como que um sacramento, ou sinal, e instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o género humano»; e disto é Ele a fonte! Ele mesmo! Ele, o Redentor![27].

A igreja de Cristo, que nós todos formamos, é «para os homens», no sentido de que, baseando-nos no exemplo do mesmo Cristo, a igreja não é do Bispo de Dili nem do Pe. Brito nem se quer do Papa Francisco. A igreja não está em primeiro lugar nos órgãos que a reformam, governam – diz Joseph Ratzinger – e sim, naqueles que simplesmente crêem e recebem nela o dom da fé que se torna vida. Só quem experimentou, para além das mudanças dos seus servidores e das suas formas, a acção da igreja nas pessoas, confortando-as, dando-lhes um lar e esperança, um lar que é esperança – caminho para a vida eterna -, só quem teve essa experiência sabe o que é a igreja, tanto no passado como no presente[28]. Na verdade, ela foi fundada para servir a humanidade, para vivificar a terminologia bíblica de diaconia, kerygma e koinonia.

Entramos agora na esfera da eclesiologia, convencidos das seguintes características fundamentais: a igreja como mistério, a igreja como comunhão, a igreja como missão, a igreja em assembleia orante da palavra e como celebrante da eucaristia. Saliente-se que esta práxis foi sua característica desde os primórdios. Neste ponto, seguiremos também os quatro pontos da essência eclesial, a saber, a unidade, a santidade, a catolicidade e a apostolicidade, à qual se acrescentou, pelo seu cunho histórico e geográfico, a romanidade[29].

De acordo com esta primazia de valores, a igreja é Santa (Ef 5, 26), não somente na sua Cabeça, Cristo Jesus, mas também nos seus membros santificados pelo baptismo. A igreja é Una, já que, segundo os Actos dos Apóstolos, a unidade dos crentes reconhece-se pelo facto de que « eram assíduos ao ensino dos Apóstolos, à união fraterna, à fracção do pão e às orações » (2, 42). Assim sendo, a unidade dos crentes nutre-se do ensino dos Apóstolos (o anúncio da Palavra de Deus), ao qual respondem com uma fé unânime, da união fraterna (o serviço da caridade), da fracção do pão (a Eucaristia e o conjunto dos sacramentos), e da oração pessoal e comunitária. É sobre estes quatro pilares que assenta a comunhão e o testemunho no seio da primeira comunidade dos crentes[30]. A igreja é Católica, uma especificação que ressalta a comunhão entre o universal e o particular: há uma «compenetração» entre igreja universal e igrejas particulares, que identifica e concretiza a catolicidade da igreja[31]. A igreja Universal é uma realidade prévia às igrejas particulares, que nascem na e da igreja universal. Além disso, a igreja é Apostólica. O Cristo da igreja é o mesmo da pregação apostólica. O enraizamento apostólico exprime-se concretamente no dinamismo da Tradição. Não basta a igreja conservar ciosamente o testemunho apostólico das origens[32].

  1. Diocese e Bispo
O cristianismo fundou-se em virtude dos princípios recebidos do Mestre, até ao século IV. Foi no concílio de Niceia em 325 que se estabeleceram os princípios fundamentais da hierarquia na forma de única igreja. Assim, foi primeiramente estabelecida a autoridade religiosa e a administração eclesiástica. Abre-se, então o caminho para noção de Diocese (do grego dióikesis, administração), isto é, a extensão territorial sob autoridade de determinado bispo[33]. Em grego, epíscopos significa “inspectores, vigilantes”. É o pastor, aquele que preside à eucaristia, vigia e alimenta ortodoxia da fé, cuida da comunhão fraterna[34].

Os bispos, “sucessores dos Apóstolos”, também são classificados como «vigários de Cristo» na igreja. Em virtude da sua ordenação, o Bispo é constituído simultaneamente membro do Colégio Episcopal e pastor duma comunidade local, que ele serve através do seu ministério de ensinar, santificar e governar[35]. Instituídos para «guiar pastoralmente “ad pascendum” o povo de Deus, os bispos estão ao serviço “inserviunt” dos seus irmãos» (LG 18). De facto, com «A Ordem dos Bispos, que sucede ao colégio dos Apóstolos no magistério e no governo pastoral “regimine pastorale”» (LG 22), «Cada um dos Bispos que estão à frente de igrejas particulares, desempenha a acção pastoral sobre a porção do Povo de Deus a ele confiada» (LG 23). Este «ministério “munus” que o Senhor confiou aos pastores “pastoribus” do Seu povo é um verdadeiro serviço “servitium”, significativamente chamado “diaconia” ou ministério “ministerium”» (LG 24). Por isso, cada bispo deve actuar como um «servidor – ministrator», já que «a eles é confiado plenamente o ministério pastoral “múnus pastorale”», isto é, «o cuidado quotidiano e habitual das próprias ovelhas» (LG 27). Assim, o ministério pastoral do bispo, segundo o que está descrito na introdução da LG 24 e na conclusão 24, se converte no conceito central que engloba e articula o ministério da palavra ou litúrgico-sacramental[36]. Em virtude desta participação no sacerdócio e na missão, os presbíteros reconhecem o Bispo verdadeiramente como pai e obedecem-lhe com reverência (LG 28). De resto segundo a fórmula clássica «debitus honor et reverentia». A autoridade na igreja é confiada ao Papa e aos Bispos, não sendo, de nenhuma forma, de domínio ou coerção, mas de serviço e responsabilidade, como ministério de unidade. Não é por acaso que o lema do Sumo Pontífice é «Servus servorum Dei».

Em suma, a expressão «Não menciono igreja…eu prefiro utilizar a palavra de Deus que estão escritos no Antigo e Novo Testamento (…) o sistema da igreja que educam as pessoas a praticarem a violência», assim formulada, faz-me lembrar uma clássica dialéctica normalmente expressa de seguinte forma: «Cristo sim, a igreja não». Atrevo-me acrescentar «igreja sim, mas os Padres-Madres não». Enfim, assim se cai no aforismo de «believing without belonging» (G. Davie). Do ponto de vista de abbá-Pai, não pode o autor do comentário limitar-se a falar do que é e há-de ser um cristão, como discípulo do Senhor e membro da igreja, pois, desse modo, limitamos o nosso crer à «sola fides» de Lutero. De facto, é imperioso um intercâmbio entre “fides quae” e “fides qua”, isto é, a inseparabilidade entre o conteúdo e o acto da fé. Embora o “conteúdo da fé” e o “acto da fé” sejam diferentes realidades, esses dois “actos” são dois elementos de um mesmo agir humano. Há que recuperar o poder crer na igreja como «crer eclesialmente». Pois, se os crentes são membros do Corpo cuja Cabeça é Cristo, os cristãos contribuem, pela constância das suas convicções e dos seus costumes, para a edificação da igreja. A igreja cresce, aumenta e desenvolve-se pela santidade dos seus fiéis, até ao estado do homem perfeito, à medida da estrutura de Cristo na sua plenitude[37]. A igreja tem, por isso, o direito de criticar qualquer tipo de cultura, mormente a «cultura da morte», que não ajuda na humanização do indivíduo e a sociedade. Esta primazia ou hierarquização de valores da «civilização do amor» foi, precisamente, protagonizada pela igreja diocesana timorense nos tempos difíceis de opressão do povo. «Igreja e diocese hadau malu na´an ruin», segundo o aforismo de Jean Bernard: «aquilo que não é científico não é ético», ou seja, a partir do falso, não se pode chegar a verdade. À sua própria forma mentis, parece-me que falta processo de maturação ética. O que se joga aqui é, de facto, um manifesto de encurtamento e a cegueira do desejo de criticar sem fundamento lógico.

Na verdade, cada um tem o seu ângulo específico de visão da realidade, mas por mais profundas e exactas que sejam as suas considerações, não deve aceitar estas afirmações como uma síntese completa e verdadeira, porque assim opta por desconhecer outros aspectos tão ou mais importante para a sua reflexão. Não acuse cegamente a igreja de haver ensinado os seus fiéis a praticarem violências, repare nos seus “servus” que deixam tudo para trabalhar arduamente na implementação de uma «cultura da civilização do amor», para a humanização do povo timorense. Na verdade figura paradoxal da igreja – na linguagem de Ratzinger – em que o divino tantas vezes se apresenta em mãos indignas e se faz presente (…), é para os fiéis um sinal de não-obstância do amor de Deus (…) entre a fidelidade de Deus e a infidelidade do ser humano que marca a estrutura da igreja (…) são em si mesmo indignos, se torna presença constante e visível na história. Poderíamos afirmar que a igreja, precisamente por causa da sua estrutura paradoxal, feita de santidade e imperfeição, é a figura da graça neste mundo[38].    

Para concluir, acredito que vai surgir uma «nova primavera» na igreja diocesana timorense com a presença de uma Universidade Católica para formar os Padres ou Religiosos/as em ordem a serem capazes de responder com eficácia às exigências que o mundo actualmente apresenta. É a nossa esperança, todos esperamos «que este tempo proporcione à igreja em Timor uma nova primavera de vida cristã[39]».

Braga, 27/04/2013
Afonso Sarmento Mendonça
Universidade Católica Portuguesa
Centro regional de Braga



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