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terça-feira, 8 de janeiro de 2013

SIRI LOE


                  Por Eng. Luis Cardoso Takas*

Nasço no mesmo dia e no mesmo ano que o meu alter-ego sobre quem este livro trata. Eu sou o Siri Loe a parte gentia da família. A parte oculta. Onde todos esperam encontrar alento quando tudo falha. Na casa do professor catequista reservam-me o quarto do fundo. Sombrio e assombrado. A retaguarda segura.

No dia em que o meu pai chama o meu alter-ego e lhe propõe atravessar a ribeira para a outra margem onde estão os poderosos, minha mãe diz-lhe de uma forma contundente que não acha que isso seja necessário. Na minha família já houve um homem muito poderoso e que era tratado com reverência por Dato Siri Loe. Não acha que algum dos descendentes seja capaz de lhe superar os feitos. O velho catequista é que não se conforma ao ser contestado diante dos filhos:

- Se era assim tão poderoso por que razão se deixou prender, tendo acabado os seus dias desterrado como Boaventura de Manufahi?

Explica o seu projecto que irá modificar para sempre a vida do meu alter-ego. Que os poderosos de que fala são outros. Aqueles que moram na outra margem. Quem o quiser ser tem de atravessar a ribeira. E depois fazer-se respeitar no meio deles.

Continuo a manter a minha identidade. Continuo animista e convictamente animista depois de ter visto o velho professor catequista mandar pela janela fora um seu auxiliar, pela simples razão de ter pronunciado mal uma palavra em língua portuguesa. Coisa que um cristão nunca deve fazer ao outro. A defenestração não consta nos procedimentos da Bíblia. Nunca um profeta mandou o outro pela janela fora só por ter pronunciado mal a palavra Yavé. O que valeu ao pobre rapaz foi que a habitação era de um só piso. O auxiliar catequista veio mais tarde a casar tendo gerado um filho com o nome de Basílio. O bispo. Que assina o brilhante prefácio deste livro.

Quando o meu alter-ego atravessa a ribeira para ir a Dili estudar, minha mãe chama-me à parte e faz-me a seguinte recomendação:

- Siri Loe, vai atrás dele. Doravante serás a sua sombra.

Acompanho a descida do meu alter-ego à capital. Mora na periferia na casa de um afilhado do meu pai, que tem por inerência cristã obrigação de o receber. Faz os estudos primários nos salesianos. Entra para o Seminário de Nossa Senhora de Fátima onde, para além de aprender latim, aprimora a sua vocação musical, de tal forma que lhe é atribuído o epíteto de o pequeno Mozart de ai turis laran. Apercebe-se da difícil condição em que vivem os professores catequistas. Esses pequenos quixotes da Palavra. Faz a primeira reivindicação em causa própria. O parco ordenado que aufere o seu pai não dá para pagar as propinas. Toma iniciativa de ir falar directamente com o bispo D. Jaime Garcia Goulart. O açoriano. Pede para que lhe suspendam o pagamento da propina. Os rigorosos jesuítas, é que não vão na conversa. Acham o seu gesto um grande atrevimento por ter ignorado todas as normas protocolares. Deveria falar primeiro com os seus superiores. Falta de obediência é pecado mortal. Quando se apresenta no início do ano escolar recebe a carta de despejo. A sua primeira expulsão. Passa a constar nos registos daqueles que por falta de vocação enfileiram o grosso contingente dos padres reformados. Aqueles que nas festas de kore-metan combinam estratégias para seduzir as moças utilizando o idioma de Deus:

- Quo vades, frater Dominicus!  
Recebo a primeira reprimenda do meu pai por não ter refreado os seus ímpetos que o levam a exceder-se pondo em causa as normas mais elementares que regem as sociedades. Minha mãe vem em meu socorro:

- Siri Loe, vai atrás dele. Até ao fim do mundo.
Que quererá ela dizer com até ao fim do mundo? A mensagem traz um incentivo como se de um momento para o outro, pelo facto de ter sido preterido por Deus ou por quem O representa, devesse fazer tudo para ganhar as benesses terrenas.

É assim que o meu alter-ego começa a fazer a sua escalada. Primeiro no liceu onde se mostra um aluno brilhante. Experimenta as peripécias do funcionalismo público como chefe de posto e insurge-se contra as almofadas de ocasião. Marca o passo na tropa como furriel miliciano. A viagem para a metrópole (por ter sido beneficiado com um bolsa de estudos do governo português, sendo ele uma aposta das autoridades para a tão propalada timorização da administração pública) demora tanto tempo quanto a que ele faz de Aileu para Díli. Mas os tempos mudam rapidamente. É a primavera marcelista. A contestação sobe de tom. Para mim são tempos difíceis por causa dos rigores invernais. Para ele nem tanto. Atarefado em dar explicações a uma colega sobre o que é o efeito multiplicador. O efeito tem efeito imediato. Rende-se aos encantos da colega. Pede-lhe em casamento. Acompanha as lutas estudantis e filia-se no MRPP. Assim o fazem outros bolseiros timorenses. Com o 25 de Abril regressa a Timor como dirigente da FRETILIN. É o autor de Foho Ramelau, o hino do movimento. Faz campanha nas terras do Dato Siri Loe, o avô materno. De uma maneira ou de outra assume os desígnios do velho catequista. Ser um homem poderoso. Capaz de mover as massas com aklalas e vivas. No momento da invasão indonésia encontra-se em Portugal. Começa então a saga da Frente Externa. Entra em conflito com os seus camaradas do Comité Central e pouco a pouco vai-se distanciando deles. Refugia-se em Lisboa. Toma iniciativas próprias. Viaja por todo o mundo. Cai o muro de Berlim e os poderosos de outrora deixam de o ser. No oriente floresce a economia dos Tigres Asiáticos, que se anuncia como o bloco que irá determinar a economia mundial no próximo milénio. A ideologia deixa de ser o factor determinante e passa a ser o todo poderoso mercado, o decisor. Decide por sua conta e risco entrar no mundo dos negócios. Uma ofensa para os seus camaradas do partido, que ainda comungam dos preceitos dos regimes socialistas e dos preconceitos dos movimentos anti-capitalistas. Tudo deve ser feito em nome do colectivo. Inclusive as obras artísticas. Recebe o cartão vermelho do partido. É expulso pela segunda vez. Desta vez pelos seus camaradas.  

Em Paris, um diplomata francês, oferece-lhe uma brochura sobre a vida de Pascal Baltasar, um príncipe timorense que, depois de ter sido raptado por um dominicano e após mil e uma peripécias, frequenta a Corte Francesa. O impulso do regresso leva-o a pedir ajuda gaulesa. Precisa de uma armada que o leve a Timor. É ignorado o seu pedido. Morre em Paris, pobre e desolado.

O drama do pequeno príncipe leva-o a pensar que não será esse o seu destino. Toma a iniciativa de ir falar directamente com os indonésios. Ignora todos os apelos para não o fazer. O mesmo impetuoso de sempre. Aquele que levado pelo ânimo resolve ir explicar ao bispo D. Jaime Garcia Goulart o valor elevado das propinas que o seu pai paga pela sua frequência no seminário. Sobe as escadas do Palácio do Governador para pedir uma bolsa de estudos a Soares Carneiro. Quer estudar música em Portugal. Ambas as investidas não recolhem qualquer fruto.

Os tempos não lhe correm de feição. Os Tigres caem uns atrás de outros como peças de dominó. O mito ou a fantasia oriental desmorona-se e arrasta com ele os seus interlocutores indonésios. Cai na penumbra. Nessa condição faz uma travessia do deserto. Mesmo assim não se esconde. Tem uma coragem invulgar. Submete-se ao escrutínio do voto popular. Onde espera que o povo faça justiça. Um povo muito mais maduro que os seus adversários políticos que querem a sua crucificação, dá a resposta nas urnas. Conforma-se com o resultado. O próprio também não alimenta ilusões. Ciente de que a democracia, acima de tudo, é a participação. Volta-se para a Montanha. À procura das suas raízes. Vem ter comigo. Quer saber do Siri Loe. Digo-lhe que estive sempre ao seu lado. Mesmo quando se ausentou. Mesmo quando me ignorou. A cerimónia animista na casa de Bismau sela a nossa reconciliação. Toma em conta as minhas considerações. Um Dato não se submete ao veredicto popular. Impõe-se pela sua nobreza e pela sua grandeza. Nunca atravessaria a ribeira para ir buscar na outra margem o que pretende. A grandeza faz-se dentro de cada um. Com os pressupostos e as circunstâncias que envolvem cada uma kain e a sua lisan. Terá de fazer novamente a travessia da ribeira de Aileu. No sentido inverso. Ao encontro das brumas que envolvem as montanhas e os cafezais. E lá no alto ouve-se o sussurrar do Tatamailau: 

- Não é Dato quem quer. Mas aquele que pelo seu carácter e sabedoria saiba merecer. Assim seja Siri Loe! Segundo, terceiro ou quarto. A ordem não interessa.

É apenas uma questão de Tempo.

)* Eng.Luis Cardoso Takas, escritor Timorense e na apresentacao do Livro do Abilio de Araujo (AA)!

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