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domingo, 23 de junho de 2013

A Paz vai Correndo de Mão Para Mão

Aproveito o nascer do sol em Timor-Leste, pois lá, já é de dia, para partilhar este pequeno artigo sobre a vida de Dom Ximenes em homenagem ao seu 25º Aniversário de Ordenação Episcopal. 

Parabéns e OBRIGADO 
Dom Carlos Filipe Ximenes Belo, SDB.

Bispo Carlos Filipe Ximenes Belo, SDB
19 Junho 1988 – 25º Aniversário de Ordenação Episcopal – 19 Junho 2013

Há 25 anos atrás foi consagrado o primeiro bispo timorense, o padre Carlos Filipe Ximenes Belo. A cerimónia da Ordenação inserida na Eucaristia, diante da imagem da Imaculada Conceição em Lecidere, foi fervorosamente participada por milhares de timorenses. Para muitos deles, era a primeira vez que assistiam à consagração de um bispo. O bispo ordenante foi o Núncio Apostólico em Jacarta, Mons. Francesco Canalini. Na cerimónia estiveram também presentes oito Bispos provenientes de várias dioceses da Indonésia. É de mencionar que a ordenação deste sacerdote deu-se no Ano Mariano (1987-1988) e no ano do centenário da morte de Dom Bosco (1988). 

D. Carlos Filipe Ximenes Belo - Amo Bispo como era popularmente conhecido - já vinha servindo a Diocese de Dili como Administrador Apostólico desde 12 de Maio de 1983, na altura apenas com 35 anos de idade (portanto, o bispo mais novo do mundo) e novel sacerdote (ordenado em Julho 1980). Embora “sem conhecimentos pastorais”, parecia “ mais tolerante ” que o seu predecessor, Dom Martinho da Costa Lopes. Perante o “não” e o “sim” de muitas vozes sobre a escolha deste candidato para ser o pastor da igreja local, o Santo Padre João Paulo II teria dito “e quello” acerca deste pastor “tímido”, como alguns o queriam denominar. 

MENINICE

Carlos Filipe é o quinto filho de Domingos Vaz Filipe e Ermelinda Baptista Filipe. Nasceu em Wailacama, a 3 de Fevereiro de 1948. Domingos tinha sido professor primário e lecionava também em Lautém, antes da 2ª Guerra Mundial. Após a guerra, muitos dos seus alunos tornavam-se liurai (chefes) de muitos sucos e outros, funcionários públicos. O pequeno Carlos perdeu o seu pai apenas com dois anos de idade. A mãe, dona Ermelinda, iletrada, teve de assumir o papel de pai e mãe na educação e formação dos filhos por isso, Carlos, como todos os outros timorenses, começou muito cedo a trabalhar. 

FORMAÇÃO

Além de estudar na Escola da Missão de Baucau, Carlos Filipe, cuidava também dos animais domésticos. Depois de ter feito a 4ª Classe em Ossú com os Salesianos, era seu professor da 4ª Classe o irmão João Benezatto, (trabalhou também na Madeira e encontra-se sepultado no Cemitério de São Martilho). Terminada a 4ª Classe, Carlos pediu para entrar no Seminário diocesano de Dare orientado pelos Jesuítas. Concluído o 6º Ano, o Bispo Dom José Joaquim Ribeiro, recomendou-lhe insistentemente que não se fizesse salesiano, mas o jovem Carlos Filipe, com voz firme e serena, disse que “é uma força maior que me empurra para os salesianos”. 

De 1969 a 1973 esteve em Portugal para a sua formação, tornando-se salesiano em Setembro 1973. Concluído o estudo da Filosofia regressou a Timor, mais propriamente a Fatumaca, onde fez o seu apostolado entre os seus conterrâneos e lecionou no Ciclo Preparatório. Dentro deste âmbito de formação, frequentou um Curso de Reciclagem em Agosto 1975 em Dili. Aconselhado pelo Pe. Martinho da Costa Lopes, na altura Vigário Geral, partiu a pé com outros refugiados para Atambua, devido ao conflito interno entre irmãos. De Atambua seguiu para Macau a fim de concluir o seu estágio iniciado em Fatumaca. Terminado o estágio, prosseguiu os estudos de Teologia na Universidade Católica Portuguesa entre 1976-1979, recebendo no final o bacharelato em Teologia. Foi depois enviado para frequentar a Universidade Pontifícia Salesiana em Roma, onde concluiu a licenciatura summa cum laude em Teologia Pastoral. 

SACERDOTE E BISPO

No dia 24 de Janeiro de 1980 foi ordenado diácono por D. António Javierre Ortas, SDB. No mesmo ano, a 26 de Julho, foi ordenado sacerdote em Lisboa por D. José da Cruz Policarpo, seu professor na Universidade Católica Portuguesa. Regressou a Timor em Julho 1981 onde desempenhou o cargo de mestre de noviços de 8 de Dezembro 1981 a 8 de Dezembro 1982 em Fatumaca. Depois, foi nomeado Diretor do Colégio de Fatumaca a 20 de Março de 1983, mas teve pouco tempo para exercer esta missão, porque nos primeiros dias do mês de Maio chegou um telegrama do Núncio Apostólico em Jakarta pedindo a comparência do Pe. Carlos Filipe na Nunciatura. Já era noite quando ele lá chegou. No dia seguinte, o Núncio comunicou-lhe: “Olha, Pe. Ximenes, o Santo Padre nomeia-te Administrador Apostólico de Timor. Agora vais para a capela e rezas. E depois, quando voltares, dizes que aceitas.” O jovem padre salesiano recordou-se que Dom Bosco recomendava muito a obediência ao Papa. Um desejo dele, deveria ser uma ordem. Assim, numa atitude de serviço à Igreja, assinou o documento e regressou a Timor. 

Cinco anos depois, a 21 de Março de 1988, Dom Ximenes foi eleito Bispo titular de Lorium, conservando o cargo de Administrador Apostólico e a 19 de Junho deu-se a sua ordenação episcopal. Para o lema do seu episcopado escolheu a frase de São Paulo: “Caritas Veritatis, Veritas Caritatis” (Caridade na Verdade, Verdade na Caridade), lema que o norteou na sua entrega e dedicação ao Evangelho e na defesa dos Direitos Fundamentais do seu povo.

ACONTECIMENTOS QUE SE SEGUEM

Com o tempo, tornou-se a única voz timorense que insistentemente apelava para a paz e a liberdade e teve a coragem de condenar publicamente a crueldade e o abuso das forças armadas, a guerra psicológica e as constantes violações dos direitos humanos, entre outros, “o massacre de Crarás”. 

Como bispo visitava todas as paróquias e capelas espalhadas por Timor, onde foi sempre acolhido com muita fé e carinho. Nos tempos fortes da Igreja, sobretudo Advento e Quaresma, escreveu muitas Cartas Pastorais, para partilhar os momentos da vida da igreja e dar orientações aos cristãos para uma vivência prática da Fé. Denunciou veementemente, não só as bárbaras práticas ofensivas dos ocupantes, mas também a maneira como os da guerrilha tratavam os seus irmãos deixando-os sofrer ao Deus dará.

Para além de encontros com autoridades civis, religiosas e militares da Indonésia, Dom Ximenes teve também encontros em Ossú e Fatumaca com o Comandante em Chefe, Kayrala Xanana Gusmão, trocando com ele o seu ponto de vista acerca das consequências que o povo enfrentava diariamente por causa do conflito que opunha timorenses e indonésios, mas igualmente entre os próprios timorenses. Dom Ximenes escreveu ainda a muitas figuras mundialmente reconhecidas pedindo ajuda para o oprimido povo timorense e apoio para a promoção de um futuro independente para o povo de Timor-Leste. Dom Ximenes foi perseguido pelas autoridades indonésias e, por duas vezes, atentaram contra a sua vida. No dia 6 de Fevereiro 1989 escreveu ao secretário-geral da ONU, Javier Pérez de Cuellar, reclamando por um referendo sob os auspícios da ONU, sobre o futuro de Timor-Leste e pela ajuda internacional ao povo timorense que estava “a morrer como povo e como nação”. 

O Papa João Paulo II, mostrando a sua solidariedade para com esta igreja, visitou e celebrou a Eucaristia em Tasi-Tolu, onde presenciou também a manifestação dos jovens após a Missa, no dia 12 de Outubro de 1989. Com esta visita, Sua Santidade colocou de novo o problema de Timor na arena internacional. Porém, a situação veio a piorar quando o Bispo Dom Ximenes Belo deu abrigo na sua própria residência a jovens que tinham escapado ao massacre de Santa Cruz, no dia 12 de Novembro de 1991 e denunciou os números das vítimas mortais (mais de duzentos) que os ocupantes desmentiram afirmando que tinham sido apenas 19 mortos e 91 feridos. Número que é lançado ao ar como poeira, devido ao trágico acontecimento daquele ano 1991. Convidado pelo Secretário-Geral da ONU, Dom Ximenes participou no “Encontro Intra-Timorense”, patrocinado pela ONU em Burg Schlaining, na Áustria.

A obra corajosa deste bispo em prol dos timorenses e em busca da paz e da reconciliação, bem como a sua oposição aos massacres de timorenses, valeram-lhe a hostilidade do regime de Jacarta, por essa razão, e por ter sempre procurado romper o isolamento de Timor-Leste, chamando a atenção do mundo para o que ali se passava, foi internacionalmente reconhecida quando, em conjunto com seu compatriota o ativista de Timor-Leste no exterior, Dr. José Ramos-Horta, foi-lhes entregue o Prémio Nobel da Paz a 10 de Dezembro de 1996. No seu discurso afirmou: “Como bispo deste povo vejo o Prémio Nobel da Paz não como algo meramente para homenagear uma pessoa, mas como homenagem legítima pelo trabalho desenvolvido pela Igreja Católica em Timor, defendendo os direitos inaliáveis do seu povo (...). O que o povo quer é a paz, o fim da violência e o respeito pelos Direitos Humanos. Tenho a esperança de que o Prémio Nobel da Paz promoverá estes objetivos.» Na sequência deste reconhecimento, D. Ximenes Belo teve oportunidade de se reunir com Bill Clinton, Nelson Mandela e várias entidades civis, religiosas e mesmo militares para falar sobre a realidade que se vivia em Timor-Leste. Não tardou, seis anos depois, a 20 de Maio de 2002, no mesmo sítio onde João Paulo II havia celebrado a Eucaristia, vê-se a Bandeira da República Democrática de Timor-Leste erguer-se majestosamente no mastro, assinalando assim o nascimento do primeiro País do século XXI, também com a presença de Maria na efígie da estátua de Nª Sª de Fátima, para além dos convivas que celebravam jubilosamente entre lágrimas este histórico e memorável acontecimento. 

Com a saúde enfraquecida, Dom Ximenes Belo pediu ao Papa João Paulo II, em Novembro daquele ano, a sua demissão como Administrador Apostólico e partiu para Portugal que o acolheu para tratamento médico. Em 2004 aceitou ser missionário em Moçambique mas por motivos de saúde, um ano depois, regressa de novo a Portugal, onde se encontra até a presente data. Em Portugal, além de colaborar com os sacerdotes na Pastoral, é também convidado para falar da paz, direitos humanos, justiça, solidariedade ou temas inerentes à vida da Sociedade, não só em Portugal mas também noutros países.

No seu tempo livre, para além de escrever a História da Igreja de Timor-Leste, que em breve irá para o prelo, publica também resenhas em artigos dos jornais acerca da História da Igreja de Timor. Alguns autores solicitam-no para escrever o Prefácio dos seus livros. Recentemente publicou dois livros: “OS ANTIGOS REINOS DE TIMOR-LESTE” e “DOM FREI MANUEL DE SANTO ANTÓNIO”. 

Em homenagem ao Bispo Dom Jaime Garcia Goulart, que foi Bispo de Dili desde 1945 a 1967, Dom Ximenes visitou a freguesia da Candelária na ilha do Pico, Açores. Em homenagem ao Capitão Armando Pinto Correia, madeirense natural do Estreito Câmara de Lobos que esteve a trabalhar nos anos 30 na terra de Dom Ximenes em Baucau e escreveu o livro “Gentio de Timor”, livro “considerado pelo antropólogo Arnold Gennep, na Revista Mercure de France (1936), como um dos melhores livros do Mundo, enquanto monografia de um povo”, Dom Ximenes visitou a ilha da Madeira entre 11 a 15 de Novembro de 2009, por ocasião do lançamento da 2ª edição do livro "Gentio de Timor".

D. Ximenes Belo esteve na Guarda, entre os dias 7 e 11 de Julho de 2008, a orientar um retiro de sacerdotes da Diocese, realizado no Centro Apostólico da Guarda. O Jornal «Guarda» fez-lhe uma entrevista que foi publicada no dia 18 de Julho de 2008 da qual retirámos um pequeno extrato:

«A Guarda: Qual o papel da Igreja Católica no processo de independência de Timor-Leste? 
D. Ximenes Belo: Não foi um problema político, portanto, não se pode falar no papel da Igreja Católica na independência de Timor-Leste. É mais um papel de moral, de proteção das pessoas, dos que sofrem, dos débeis, dos direitos humanos, sobretudo na defesa da justiça, da paz e dos direitos humanos. Era mais uma voz moral, um suporte moral para a população, do que propriamente uma força política, porque nós não nos sentíamos como políticos, o nosso trabalho era na pastoral, ao nível da justiça e da paz». 

Dom Ximenes Belo é mesmo um homem de paz: nos gestos, na simpatia, na afabilidade e até na maneira delicada e bondosa como fala. Parabéns Dom Ximenes.

Desejamos a Dom Ximenes Belo muita saúde no seu múnus apostólico. Um abraço, Dom Ximenes.

Crispim Hornay
18 de Junho 2013.

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