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Entrevista
a Nicolau dos Reis Lobato


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quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

A GUERRA DE MANUFHAI – 3ª fase (continuação)

Os meses de Agosto, Setembro e Outubro de 1912 foram dramáticos para Dom Boaventura da Costa, para a família e para os seus combatentes. Pode-se dizer, foi um desastre geral para o povo assuwain de Manufahi. Derrotado e acossado pelas forças portuguesas e seus aliados (moradores e auxiliares timorenses) o povo de Manufahi tinha perdido tudo; casas, plantações, culturas, gado, etc.

O liurai Dom Boaventura estava escondido na floresta e nos pântanos de Betano. Da sua família, perdeu a mãe e os irmãos. Relata Jaime de Inso: “ Toda a família daquele famoso régulo foi decapitada no próprio solar, incluindo a mãe, cuja sorte ouvimos lastimar, porque se tinha mostrado amiga dos portugueses” (Timor 1912, p. 198).

Entre os combatentes de Manufahi muito foram mortos. Outros passaram a combater ao lado dos portugueses. A estes quando lhes foi perguntado porque não se rendiam, respondiam: “ e vós por que não vos rendeis ao nosso governador de Timor, Dom Boaventura?” (Nusá imi la rende ba ami nia Embot Dom Boaventura?). Os dias 11 e 12 de Agosto de 1912 foram dias de chacina. Os moradores passavam horas a cortar as cabeças aos rebeldes. Tal foi a quantidade de cabeças cortadas que os moradores exclamavam: “Já doem os braços, senhor, já não pode cortar mais cabeças”. Calcula-se que nesses dias terão morrido mais de 1.700 timorenses. Só a 10ª Companhia dos moçambicanos registou no seu palmarés 628 mortos e 410 prisioneiros.

Entretanto, a 13 de Agosto de 1912, o governador Filomeno da Câmara nomeava o tenente Francisco Pedro Curado novo comandante de Same. Coube a este oficial português a missão de procurar e prender Dom Boaventura da Costa. A missão de ataque ao reduto do régulo de Manufahi vai demorar dois meses.

No dia 17 do mesmo mês, o governador regressa vitorioso a Díli. Regressam também os destacamentos de moradores e de auxiliares. A entrada na Praça de Díli foi de festa e de vitória: os moradores tocavam tambores e cornetas; exibiam bandeiras e cabeças de inimigos, umas espetadas nas pontas de bambu, outras penduradas em cordas. O governador autorizou uma festa macabra. Além das danças tradicionais de tebe, dahur, e bidu, foi organizada a festa de cabeças. Fazia-se um círculo e dava-se pontapés às cabeças cortadas. Depois dos festejos, as companhias de moradores regressavam aos seus comandos levando os troféus da guerra: os presos (homens, mulheres e crianças) ficarão como escravos (atan); as cabeças dos inimigos mortos serão depositadas nos montículos lulic ou nas cavernas das florestas lulic da aldeia. Alguns vencedores levarão para as suas terras búfalos, cavalos cabritos e porcos.

Nos dias 23 e 24 de Outubro o tenente Curado acompanhado dos seus homens lança um ataque ao reduto de Pau Preto. Travou-se um renhido combate, pois Curado perde quatro homens. O liurai põe-se em fuça, mas muitos dos seus homens rendem-se. Finalmente, no dia 26 de Outubro de 1912, Dom Boaventura Souto Maior entrega-se às forças do tenente Francisco Curado.

Depois de ter sido preso, o régulo de Manufahi será levado para Díli. Sobre a prisão, levantaram várias hipóteses: Ataúro? Balibó? Batugadé? Aipelo? Com Dom Boaventura foram presos o “major” Mali-Coli de Leolima; Dom Vicente, irmão de Dom Boaventura. João primo do régulo, o régulo de Aituto, Nai Clara. O régulo de Alas caiu varado na planície de Aiassa.

As perdas humanas no final da terceira fase da guerra de Manufahi: do lado das forças governamentais: 205 mortos e 377 feridos; do lado dos “rebeldes”: 2.684 mortos e 8.144 feridos.

(continua no próximo número)

Porto, 23 de Janeiro de 2012.
Dom Carlos Filipe Ximenes Belo

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