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sexta-feira, 18 de novembro de 2011

O GIGANTE ENTRE NÓS

Agio Pereira*

A questão que versa sobre os EUA enquanto aliado indispensável ou como império benigno, instiga cada vez mais debate. A resposta é simples: ambas as perspectivas são defensáveis. Os EUA são elementares para, na maioria das vezes, influenciar os Estados a concentrarem os seus recursos na construção daquilo que a natureza humana de melhor pode produzir. Igualmente, e ao fazê-lo, os EUA não podem deixar de agir como império benigno, na medida em que as restrições de segurança a nível global, incluindo ao peso decrescente da União Europeia, assim o impõe. Esta é a razão pela qual a declaração do Presidente Obama, aquando da sua visita a Canberra, Austrália, sobre a futura base americana de fuzileiros em Darwin, provocou uma forte e negativa reacção por parte da China. Reacção expectável, como o próprio Obama admitiu, ainda que a Austrália seja um dos mais fortes aliados dos EUA.

Contudo, o problema reside no denominado “dilema da segurança” no âmbito das relações internacionais, e que é particularmente visível entre médias e grandes potências. Sempre que um Estado se move no sentido de incrementar a sua capacidade militar, provoca necessariamente reacções negativas noutro Estado, e que espelham o receio do mesmo. Isto porque, um reforço militar é uma ameaça e põe em risco a sobrevivência dos Estados que, possuindo poder militar e económico, por vezes entram em guerra. Logo, a movimentação de um Estado no sentido de garantir a sua sobrevivência através de meios militares, inevitavelmente, faz com que outro Estado também incremente a sua própria capacidade. Neste caso em particular, a movimentação dos EUA para aumentar a sua presença militar na região norte da Austrália instiga, na elite Chinesa, a convicção de que a China tem de reforçar o seu poder militar para garantir a sua sobrevivência. Ao afirmar a sua presença naquela região com 2.500 fuzileiros e uma força aérea conjunta, os EUA reflectem o crescente poder militar e a assertividade projectada pela China. Ambos continuarão a reforçar os respectivos poderes até ao dia em que a guerra seja uma inevitabilidade.

Esta nova Guerra Fria está a ‘aquecer’. Porém, duas questões permanecem. Primeiro, quando é que este ‘aquecimento’ atinge o ponto de ebulicão? Como alguns especialistas argumentam, o dilema da segurança prevê que este é um processo imparável que pode, no entanto, ser adiado e a guerra evitada, desde que se mantenha uma comunicação efectiva entre os líderes desses Estados. Segundo, o que acontece quando se atinge o ponto de ebulição? Partindo deste paradigma, todas as conversações oficiais que permitam alcançar a esfera pública são revestidas com o intuito de mitigar a realidade que se vislumbra – o perigo de guerra.

Então o que nos estão a dizer os líderes destas nações gigantes? De acordo com o New York Times de 16 de Novembro de 2011, para a China são os EUA e não a China que ‘usam o seu poder militar para influenciar os acontecimentos na Ásia’. Mais, a China afirma que os EUA deveriam concentrar-se no uso de soft power ao invés do poder militar. Isto demonstra igualmente que a estratégia da China é culpar os EUA por qualquer nova movimentação levada a cabo pelo governo Chinês de modo a reforçar a sua capacidade militar ofensiva.

Aquando do discurso ao Parlamento Australiano na passada quinta-feira, o Presidente Obama explicou que esta decisão de edificar a presença militar dos EUA naquele país, é uma decisão deliberada e estratégica que possibilita aos EUA desempenharem um papel mais eficaz, com perspectiva a longo prazo ‘na formação’ da região da Ásia-Pacífico. Nessa medida, a China está correcta na sua interpretação quando diz que os EUA pretendem influenciar os acontecimentos na região. A presença militar é um dos meios que permite aos EUA ter um papel mais contundente. Para melhor entender esta estratégia norte americana, Ben Rhode, Vice-Conselheiro de Segurança Nacional para as Comunicações Estratégicas, explicou numa entrevista dada na Casa Branca a 9 de Novembro, que o objectivo final dos EUA é serem mais pró-activos tanto a nível económico como a nível militar na região da Ásia-Pacífico. Ou seja, pretende-se ‘restaurar as nossas alianças nesta parte do mundo, para elevar o estauto dos EUA na região e, novamente, assegurar que os EUA continuam a ser a maior potência económica e de segurança na Ásia-Pacífico e arredores’.

Porém, ‘a moldar a região de que forma?’ é o que a China pode justificadamente perguntar, uma vez que para a China, o seu igualmente decisivo interesse estratégico regional de construir a sua força militar e económica para, pelo menos atingir a hegemonia regional e assim sobreviver, está agora sob ameaça. Mais, a China entende que os EUA não estão somente a expandir as suas alianças militares, mas estão igulamente a fortalecer a aliança entre o poder militar e económico. Este último determina o primeiro já que sem poder económico, o poder militar não é sustentável. O desapareceimento da União Soviética é disso bom testemunho. O Presidente Obama lidera pessoalmente e pelo seu país, este desafio do pós guerra fria e pós União Soviética, ao implementar o que o seu antecessor, o democrata Bill Clinton, iniciou em 1993. O novo ênfase na segurança é, no entanto, a expansão com o objectivo estratégico de contenção, contra a China. Por outras palavras, o novo desafio de segurança global, não está na Europa, está na região da Ásia-Pacífico, particularmente dentro da esfera de influência que a China pretende consolidar.

A China tem de forma pró-activa mantido a sua influência dentro e fora da região, oferecendo apoio económico e técnico a diversos países. Até agora, tal apoio é oferecido com aparente intenção benéfica e com o mais nobre dos objectivos de respeito mútuo, juntamente com o seu interesse estratégico nacional de garantir uma fonte sustentada de fornecimento de energia para as suas indústrias. Para qualquer Estado, esta é uma estratégia de sobrevivência perfeitamente legítima. A China proclama o objectivo de reforçar o espírito de cooperação mútua com foco na construção de uma relação de vizinhança harmoniosa, como relatou Wang Yusheng há dias em Pequim. Isto não deveria ameaçar os interesses nacionais dos EUA já que se tratam de interesses compartilhados pelas partes. No entanto, os EUA enquadram esses objectivos de forma diversa, numa narrativa própria de disseminação de valores democráticos; algo que a China pode interpretar como uma ameaça. Para os EUA é a ênfase crescente no desenvolvimento militar chinês, resultado directo do sucesso económico do país, que coloca sérias preocupações. Face ao receio que daí advém, há que desemprenhar um papel crucial.

Acresce que a síndrome de crescimento económico dita que, quanto mais poderosa for a economia nacional, mais sofisticada deve ser a estratégia para o desenvolvimento da segurança nacional. A principal consequência é a protecção dos interesses nacionais. Esta é a razão pela qual os EUA decidiram apostar na região norte da Austrália. No entender do Presidente Obama, o envio e mobilização de tropas americanas é uma resposta aos ‘desejos dos aliados democráticos da região, do Japão à Índia’, países que se têm preocupado com a possível cedência da liderança dos EUA para a China provavelmente e utilizando a expressão do The New York Times, devido a fatiga de guerra. Este é certamente um factor central. O outro é a sobrevivência da própria Austrália, equacionada com a contenção efectiva do poder de ofensiva miltar da China

Como podem 2.500 tropas norte americanas estacionadas em Darwin limitar a ambição da China de se tornar na superpotência regional? Uma forma de responder a esta questão é analisar o artigo de Hillary Clinton, ‘O Século Pacífico da América’, publicado pela Foreign Policy de Novembro de 2011. A Secretária de Estado deixa claro que ‘para sustentar a nossa liderança, segurar os nossos interesses e avançar com os nossos valores (...) uma das tarefas mais importantes da política americana da próxima década será, portanto, empenhar-se no aumento substancial de investimento – diplomático, económico, estratégico e outros – na região da Ásia-Pacífico’. Sustentar a liderança dos EUA é uma preocupação crescente, uma vez que o mundo depende dos EUA como única superpotência capaz de melhorar a segurança global e de proteger valores democráticos fundamentais. Nos dias de hoje, esta não deveria ser uma tarefa muito complexa, porque não há outra potência no mundo capaz de igualar os EUA. Com a União Europeia envolta em crises sem paralelo, a demanda para que os EUA continuem a desempenhar um papel mais pró-activo está a aumentar.

Mas qual é a região da Ásia-Pacífico a que Hillary Clinton se refere? A região inclui grande parte da Ásia Oriental, Sudeste Asiático, Austrália e Oceania, principais países asiáticos e os demais em torno da costa do Pacífico. Já a Cooperação Económica da Ásia-Pacífico, mais conhecida por APEC, inclui o Canadá, Chile, Rússia, México, Perú e EUA; e o Comissariado Económico Social das Nações Unidas para a Ásia e Pacífico (ESCAP) inclui a Turquia, Ásia Central e do Sul, Sudeste e Nordeste Asiático, estendendo-se para as ilhas do Pacífico no leste. Muitas vezes, os críticos questionam se esta vasta região pode ou deve ser considerada uma verdadeira comunidade de interesses ou, se é antes uma construção política estabelecida para alargar a influência ocidental. Esta crítica parece reflectir sobre a inevitável predominância dos EUA e o seu foco nem sempre claro na comunidade e interesses comuns. Se adicionarmos o desequilíbrio do sistema de comércio livre, onde os poderosos ditam as prioridades e os Estados fracos, sem know-how, não podem competir, a percepção de que a região é uma construção sob o pretexto de expandir a influência ocidental não será fácil de refutar. Mais, as consequências da beligerância entre a China e os EUA tornam-se num factor crucial que afecta a segurança regional, e é esta beligerância que provoca o referido reforço da presença militar norte americana que, por sua vez terá um impacto considerável nas democracias liberais da região. O Gigante está entre nós. E vai reflectir-se com maior ênfase nas políticas e atitudes no âmbito das relações internacionais, independentemente das prioridades internas dos Estados na região.

O dilema da segurança, um dos factores determinantes nas guerras entre Estados soberanos, é constantemente mitigado pela diplomacia e preparativos de segurança. Porém, o problema dos líderes de grandes potências não terem conhecimento do que se passa na mente dos seus beligerentes é, efectivamente, um problema que nunca pode ser superado. Hu Jintao provavelmente a perguntar-se-á o que se passa na cabeça de Obama e vice-versa. Ambos podem até, de uma forma satisfatória, ler o que realmente se está a passar nas mentes um do outro, mas o problema perene é que nada pode garantir que cada um deles mude de ideias. A incerteza aumenta a insegurança, tornando a corrida às armas justificável e até mesmo racional.

Em 1993, o anfitrião da primeira Reunião de Líderes da APEC, o então Presidente Bill Clinton, declarou que a liderança dos EUA no mundo visa, em última análise, a promoção e a preservação da paz. Depois de dezoito anos e com o globo a enfrentar novos desafios de segurança, essa meta revela-se ainda mais relevante. Após o fim da Guerra Fria, devido à queda da União Soviética, os EUA apresentam-se como a superpotência global, capaz de fazer o melhor para a segurança mundial. Contudo, hé quem se preocupe com razão, na medida em que por vezes os EUA nem sempre agem da melhor forma e também erram. Após dez anos, muitos se questionam como seria o mundo de hoje se Al Gore tivesse sido declarado pelo Supremo Tribunal dos EUA, como Presidente eleito. Uma pergunta razoável se considerarmos que os líderes de superpotências podem determinar o futuro do planeta. Seguindo este raciocínio hipotético, o actual fenómeno denominado de Arab Spring, ou a Primavera Árabe, provavelmente trataria Sadam Hussein da mesma forma que lidou com Gaddafi e outros. Mais, milhares de vidas americanas e não-americanas teriam sido poupadas.

Porque a Austrália decidiu aumentar o seu poder de fogo, como frisa o Livro Branco da Defesa, os comentadores regionais argumentam que a Austrália está efectivamente, a preparar-se para a Terceira Guerra Mundial. Darwin foi severamente punido na Segunda Grande Guerra, e a probabilidade de sofrer punição semelhante pode ser minimizada com a presença efectiva dos EUA nesta região estratégica, ou até aumentar precisamente pelo mesmo motivo.

Este paradigma de segurança regional põe em questão o argumento de Samuel Huntington e a sua teoria sobre a inevitabilidade do choque de civilizações. Se esta decisão dos EUA de ocupar posições mais estratégicas na região da Ásia-Pacífico, significa o reforço do espírito de comunidade económica ou, tem como intenção base conter a China, esse é o debate em curso. O primeiro, que realça o espírito de comunidade económica é, obviamente, o que todos nós esperamos. É de importância mor que o Oriente encontre o Ocidente. Resta-nos acreditar que tudo isto seja para promover a preservação da paz.

*Em exclusivo ao Forum Haksesuk!

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