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sexta-feira, 22 de abril de 2016

D. Ximenes Belo: “Falar de paz universal é para os poetas”

Dom Ximene Belo
Corria o ano de 1996, quando um padre filipino entregou a D. Ximenes Belo, que realizava uma cerimónia, um bilhete. Ele leu-o e, sem expressar qualquer tipo de emoção, colocou-o no bolso. Não era uma noticia qualquer. O bilhete transmitia-lhe que tinha sido distinguido com o Prémio Nobel da Paz. Mas o Bispo Emérito de Díli limitou-se a prosseguir a liturgia. No final, pediu para que ninguém desse a conhecer aquela notícia. “Não deixei transparecer qualquer tipo de emoção. Estávamos sobre domínio indonésio e sabia que se aquele facto fosse conhecido os jovens iriam para a rua manifestar-se e como resposta receberiam rajadas de metralhadora. Isso era algo que queria de todo evitar. Cá dentro senti uma enorme responsabilidade. Não era um prémio meu, era de todo o povo timorense”. Foi esta a resposta que os muitos alunos do Agrupamento de Escolas de Oliveira do Hospital ouviram ontem de D. Ximenes Belo quando o interrogaram sobre o que tinha sentido quando soube que tinha sido agraciado com o Prémio Nobel da Paz.

O encontro, num salão lotado com centenas de alunos, inseriu-se na visita do Bispo Emérito de Díli ao concelho de Oliveira do Hospital a convite da Unidade Pastoral de Oliveira do Hospital. O objectivo inicial passava por realizar apenas uma conferência subordinada ao tema “O mundo precisa de misericórdia” no teatro de Ervedal da Beira, mas o programa acabou por ser alargado devido às várias solicitações. Além da visita à escola, aquele que foi um dos principais rostos da resistência timorense à ocupação indonésia teve ainda uma recepção na Câmara Municipal e celebrou uma Eucaristia na Igreja Matriz.

“Desistir é morrer”

“Disseram-me que na escola também queriam ouvir umas palavrinhas. Aqui estou. É muito importante estar em contacto com os jovens”, começou por referir D. Ximenes Belo perante a enorme plateia de alunos, antes de agradecer a solidariedade dos portugueses para com Timor durante a ocupação indonésia. Falou sobre a Paz e, perante a pergunta de um outro aluno sobre o que fazer para se atingir a paz plena, D. Ximenes Belo limitou-se a responder que a paz universal é uma utopia. “Falar de paz universal é dos poetas. Somos homens e mulheres. Nós é que provocamos a guerra. Temos é de trabalhar para diminuir os seus efeitos. É um esforço conjunto, de todos”, sublinhou.

Explicou ainda que nunca desistiu perante a pressão da Indonésia porque em causa estava a defesa de valores que eram desprezados. “Quando isso acontece as pessoas continuam a lutar. Desistir é morrer. Foram anos difíceis, mas tínhamos a convicção que não podíamos desistir. Nestas lutas pela independência é preciso perseverança. Estava em causa o destino de um povo. Somos pequenos, mas temos direitos”, respondeu, salientando, porém, que não foi a guerrilha, que existia e lutava nas montanhas, que atingiu a vitória. “Mais importante foi a solidariedade demonstrada, por exemplo, pelos vossos pais e avós”, enfatizou, não se cansando de agradecer a solidariedade dos portugueses. “Todos estiveram unidos ao lado de Timor Leste. Somos um povo irmão, estamos ligados pela mesma, religião e língua, ambos fazemos parte da Comunidade dos Países de Língua Oficial Portuguesa”.

Nem só a resistência contra a ocupação interessou os alunos. Quiseram saber também se D. Ximenes Belo alguma vez colocou em causa a existência de Deus ou o que pensava sobre o tema do momento: a eutanásia. “Sou Católico portanto partilho da opinião dos meus pares. Que se respeite a vida. É um bem demasiado precioso para ser apressado. O ser humano morre quando chegar a sua hora”, esclareceu. Já sobre a questão de colocar em causa a existência de Deus referiu que isso nunca aconteceu desde que perdeu o pai quando tinha dois anos. “Quando chorava, a minha mãe mostrava-me as estrelas. E dizia-me: ‘Olha, isto foi criado por Deus’. Perante tamanha beleza nunca coloquei Tal em causa”, respondeu.

Deixou também um desafio à plateia: “É preciso que os jovens se cultivem e eduquem. Aqui adquiris capacidades. Mas o mais relevante é educar-vos a vós próprios, nas virtudes e nos valores éticos. O vosso esforço é importante para acabar com a distinção entre pessoas através da religião ou cor da pele. Honra, dever ético, honestidade. Para haver paz é preciso começar por fazer com que exista paz no nosso interior”.

“Até os partidos políticos de ideologias opostas se uniram”

Mais tarde, o Bispo do Bispo Emérito de Díli chegou acompanhado por um dos membros da Unidade Pastoral de Oliveira do Hospital aos Paços do Concelho. As honras da recepção couberam ao vice-presidente Francisco Rolo, em representação do autarca José Carlos Alexandrino que se encontra no Chipre ao serviço da CIM, que não se conteve em elogios ao Prémio Nobel da Paz, assegurando que a sua luta marcou toda uma geração.

“D. Ximenes Belo é uma referência em Portugal e no Mundo. É simultaneamente timorense e português. A forma como lidou com os acontecimentos dos anos 80 e 90 inspirou toda uma geração, na qual me incluo. É um símbolo de como se pode resistir de forma pacífica e resolver os problemas. Estamos honrados com a presença de um homem como o senhor em Oliveira do Hospital”, frisou o autarca, lembrando ainda a enorme fé que o povo oliveirense demonstrou recentemente aquando da visita da _DCS0050 (Small)imagem de Nossa Senhora de Fátima. D. Ximenes Belo agradeceu. Voltou a reconhecer a solidariedade de Portugal para com Timor naqueles anos difíceis. “Até os partidos políticos de ideologias diametralmente opostas estiveram unidos ao lado de Timor Leste”, referiu, lembrando que cabe aos políticos, transformar a política numa arte nobre. “É trabalhar em nome do bem da comunidade”, frisou, antes de ouvir a interpretação de algumas canções por parte do coro infantil da Fundação Aurélio Amaro Dinis. Depois seguiu para celebrar a Eucaristia na Igreja Matriz repleta e que fica paredes meias com os Paços do Concelho.

Já noite dentro participou, finalmente, na conferência agendada para o teatro de Ervedal da Beira, também ele lotado. Falou sobre as sete obras de misericórdia corporais, aquelas que tendem às necessidades corporais do outro: alimentar os famintos, dar de beber a quem têm sede, vestir os despidos, abrigar os sem-abrigo, visitar os doentes, visitar os cativos e sepultar os mortos. A intervenção não deixou ninguém indiferente.

Fonte: Correio da Beira Serra
www.correiodabeiraserra.com

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