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quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Uma Cadeira de lona que sirva para contar a história de 12 de Novembro

Por: Celso Oliveira

Há muitos anos atrás, vivia um velho de barba branca, chamado Meles, no bairro de Bemori, Díli. Era muito respeitado e conhecido por toda a gente naquele bairro. Costumava ir sozinho à igreja e rezava pela paz e harmonia em Timor Leste.

Um dia, quando chegou a noite, o velho de barba branca juntou os seus netos e netas e começou a contar a história de Timor.

Era uma vez, em 1992, um ano depois de massacre de Santa Cruz, o velho de barba branca mandou reunir todos os seus netos e netas, um total de 35 crianças e mandou trazer uma cadeira de lona para pôr de baixo de uma árvore de manga, e começou a contar a história de 12 de Novembro.

«Fugiram para a nossa casa cinco jovens. Eu mandei-os entrar. Passados alguns minutos, apareceram soldados indonésios com armas na mão, a procurar esses jovens que tinham fugido na direcção da nossa casa e eu disse que não sabia de nada. Os soldados apontaram-me armas e gritaram-me: “Comunista! Comunista! Comunista”! E ameaçaram toda a gente em casa. Outros entraram, e encontraram os jovens debaixo da cama. Puxaram-nos para fora, bateram-lhes e chamavam-lhes: “Comunistas! Comunistas! Comunistas! Xanana é comunista! Ramos Horta é comunista! Bispo Belo é comunista! Fretilin é comunista”! Depois, levaram-nos para a polícia. Passados muitos meses, um jovem apareceu em casa, a agradecer o abrigo que nós lhes tínhamos oferecido. Eu disse ao jovem para não nos agradecer, porque era um dever nosso ajudar-nos uns aos outros. “Os Indonésios chamaram-nos comunistas, mas eles é que são comunistas», terminou o velho de barba branca.

O velho de barba branca parou, respirou, olhou para os seus netos e netas e começou a perguntar: “Onde é que estão os meus dois netos”? Alguém respondeu: “Um morreu e outro está na prisão”.

Na verdade, um ano depois do massacre de Santa Cruz em 1991, ninguém sabia o verdadeiro número de pessoas mortas e desaparecidas. Os mortos foram levados sem destino. Os vivos foram presos em todo o território de Timor Leste e alguns prisioneiros foram levados para outras ilhas da Indonésia. O que é certo, é que as mães continuaram a rezar e a procurar os seus filhos e filhas amados que morreram e desapareceram durante o massacre. As mulheres continuaram a chorar, à procura dos seus homens amados e os homens continuaram a lutar, clandestinamente. O sangue de 12 de Novembro era tão forte, que ninguém conseguiu esquecer este massacre.

3 anos depois do massacre de Santa Cruz , o neto do velho de barba branca que estava na prisão foi libertado.

Com uma bíblia numa mão e o terço noutra, o velho de barba branca começou a rezar e os seus netos e netas começaram a cantar.

O velho de barba branca recordou que antes do massacre de 12 de Novembro, os seus netos costumavam passar por aí para dizer “abo diak ka lae”? E depois o velho de barba branca deu um recado aos seus netos, para terem fé em Deus e terem muito cuidado.

***

A manifestação de 12 de Novembro de 1991 era uma manifestação pacífica e digna dos jovens e estudantes Timorenses, contra a ocupação ilegal da República Indonésia em Timor Leste.

Até esta data, nós ainda não sabemos os corpos dos que foram mortos e desaparecidos durante o massacre de Santa Cruz de 1991.

O Velho de barba branca e os que morreram durante o massacre de Santa Cruz de 1991 e outros que morreram durante a guerra em Timor Leste continuam a olhar para nós (os vivos), à espera que haja uma verdadeira “paz e progresso” em Timor Leste.

18 anos depois, muitas mães mandaram construir uma campa dentro das suas próprias quintas para recordarem a memória dos seus filhos amados que morreram durante o massacre de Santa Cruz. ###

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